Um experimento randomizado com 133 advogados da área de propriedade intelectual nos Estados Unidos indica que a inteligência artificial melhora a qualidade da redação jurídica de todos os profissionais, mas nem sempre consolida o julgamento e a aprendizagem de quem ainda está em formação. Os resultados são preliminares, mas oferecem pistas relevantes para escritórios que já incorporam a IA à rotina.
O working paper “Does AI Assistance Enhance or Erode Expertise?”, divulgado em setembro de 2026 pelo National Bureau of Economic Research (NBER) e liderado pelo economista David Autor, do MIT, acompanhou durante três meses advogados da área de propriedade intelectual de onze escritórios norte-americanos. Os participantes foram sorteados: cerca de dois terços receberam acesso a um assistente de redação com IA, e os demais seguiram trabalhando sem a ferramenta. Todos os trabalhos foram avaliados às cegas por advogados especialistas de um escritório independente.
Na redação de patentes com auxílio da IA, o resultado foi positivo. A qualidade dos textos do grupo com IA superou a do grupo de controle em 0,34 desvio-padrão após dez dias e em 0,38 após noventa (o desvio-padrão é a medida estatística que padroniza a diferença entre os grupos), com ganhos maiores entre os advogados mais jovens, com menos de sete anos de experiência. Esse padrão confirma o que outros estudos já haviam mostrado: a IA tende a nivelar o desempenho entre iniciantes e experientes.
O dado mais interessante veio depois. Ao fim dos três meses, todos revisaram, sem IA, um pedido de patente com falhas (a tarefa de redlining), que mede julgamento profissional, e não a produção de texto. Os advogados do grupo com IA superaram os de controle em 0,32 desvio-padrão, mas essa vantagem se concentrou integralmente nos seniores (0,45). Entre os juniores não houve ganho médio: as notas se dispersaram, com menos resultados medianos, porém mais resultados ruins e mais resultados bons. Como resumem os autores, quem mais ganhou na produção imediata foi quem menos reteve de aprendizado.
O estudo não explica o motivo. A hipótese dos pesquisadores é que a IA pode ter acelerado o aprendizado de alguns juniores e substituído o esforço de aprender de outros. Chama atenção, ainda, que os juniores relataram maior satisfação e sensação de rapidez, percepção que não se refletiu no desempenho sem IA. Nas revisões, os seniores costumavam reestruturar o texto e justificar as alterações com base em princípios jurídicos, enquanto muitos juniores identificavam defeitos graves sem corrigi-los, comportamento também observado no grupo de controle.
Para gestores jurídicos e pesquisadores do setor, esse é um dos resultados mais provocativos do experimento: ele expõe uma nítida disparidade entre a produtividade percebida e o aprendizado real. Embora os advogados juniores tenham sentido um expressivo ganho de tempo e eficiência ao interagir com a IA, esse benefício não se converteu em desenvolvimento de competência autônoma. Habituados à agilidade na geração do primeiro rascunho pela máquina, os iniciantes correm o risco de desenvolver uma ‘ilusão de produtividade’, reduzindo o escrutínio e o tempo de reflexão analítica necessários, o que ajuda a entender por que os seniores, detentores de um repertório crítico consolidado, avançaram +0,45 DP na avaliação individual, enquanto os juniores estagnaram na média.
Há ressalvas importantes. O trabalho ainda não passou por revisão por pares, foi financiado pelo Google, que desenvolveu a ferramenta testada (um produto ainda não lançado) e emprega seis dos sete autores. Além disso, a amostra é pequena (91 participantes concluíram a etapa de revisão), não houve avaliação de habilidades antes do experimento, o período foi de apenas três meses e não era possível verificar se todos respeitaram a proibição de usar IA na revisão. Por fim, trata-se da prática de patentes nos Estados Unidos, de modo que a transposição para a advocacia brasileira exige cautela.
Ainda assim, o estudo levanta uma questão que os escritórios não podem ignorar: a formação do advogado sempre dependeu do aprendizado na prática, começando pela redação de primeiras versões e pela correção feita por profissionais mais experientes. Se a IA passa a produzir o primeiro rascunho, é preciso decidir como o profissional em formação continuará desenvolvendo o discernimento necessário para avaliá-lo. Algumas possibilidades são exigir que o advogado justifique cada alteração feita no texto gerado, manter exercícios periódicos sem IA e assegurar revisão e devolutiva de advogados mais experientes. São reflexões de gestão, e não conclusões do estudo.
Artigo de autoria de Yuri Dias Luna, sócio do Villamil Advogados.


